Grande resposta às ignorâncias proferidas por Silas Malafaia no programa da Marília Gabriela. É preciso espalhar isso aí. Vídeo altamente esclarecedor. Devemos assisti-lo não apenas por causa dessa polêmica recente com o tal pastor, mas para, acima de tudo, sanarmos algumas de nossas próprias ignorâncias. Altamente indicado para homofóbicos e babacas em geral.
Mas não me venha falar de amor. Esse amor que você não pratica quando escolhe viver a solidão a um, quando prende o choro ao invés de gritar. Não me fale de amor se você nunca leu uma poesia e chorou com ela, com o belo que é a simplicidade das coisas, dos sentimentos, dos afetos. Porque amar é afeto, é afetar, é afetar-se, é submeter-se à: à alguém à vida, à morte, às dores de quem vai; de quem pisa fundo; de quem não liga para essas coisas pequenas. Não me venha falar de amor se você nunca pulou na cama do seu quarto e sentiu o quão gostoso é sentir o vento bater-lhe o rosto, fazendo-lhe bem, fazendo-lhe mais. Esse amor que você - e eu também - proclama e escreve mas não sente é o que incomoda. Ame quando as palavras te faltarem e quando todos forem embora. Ame calmo. Ame pra si… por si.
Morrer é ridículo. Você combinou de jantar com a namorada, está em pleno tratamento dentário, tem planos pra semana que vem, precisa autenticar um documento em cartório, colocar gasolina no carro e no meio da tarde morre. Como assim? E os e-mails que você ainda não abriu, o livro que ficou pela metade, o telefonema que você prometeu dar à tardinha para um cliente? Não sei de onde tiraram esta ideia: morrer. A troco? Você passou mais de dez anos da sua vida dentro de um colégio estudando fórmulas químicas que não serviriam pra nada, mas se manteve lá, fez as provas, foi em frente. Praticou muita educação física, quase perdeu o fôlego, mas não desistiu. Passou madrugadas sem dormir para estudar pro vestibular mesmo sem ter certeza do que gostaria de fazer da vida, cheio de dúvidas quanto à profissão escolhida, mas era hora de decidir, então decidiu, e mais uma vez foi em frente. De uma hora pra outra, tudo isso termina numa colisão na freeway, numa artéria entupida, num disparo feito por um delinquente que gostou do seu tênis. Qual é? Morrer é um chiste. Obriga você a sair no melhor da festa sem se despedir de ninguém, sem ter dançado com a garota mais linda, sem ter tido tempo de ouvir outra vez sua música preferida. Você deixou em casa suas camisas penduradas nos cabides, sua toalha úmida no varal, e penduradas também algumas contas. Os outros vão ser obrigados a arrumar suas tralhas, a mexer nas suas gavetas, a apagar as pistas que você deixou durante uma vida inteira. Logo você, que sempre dizia: das minhas coisas cuido eu. Que pegadinha macabra: você sai sem tomar café e talvez não almoce, caminha por uma rua e talvez não chegue na próxima esquina, começa a falar e talvez não conclua o que pretende dizer. Não faz exames médicos, fuma dois maços por dia, bebe de tudo, curte costelas gordas e mulheres magras e morre num sábado de manhã. Se faz check-up regulares e não tem vícios, morre do mesmo jeito. Isso é para ser levado a sério? Tendo mais de cem anos de idade, vá lá, o sono eterno pode ser bem-vindo. Já não há mesmo muito a fazer, o corpo não companha a mente, e a mente também já rateia, sem falar que há quase nada guardado nas gavetas. Ok, hora de descansar em paz. Mas antes de viver tudo, antes de viver até a rapa? Não se faz.Morrer cedo é uma transgressão, desfaz a ordem natural das coisas. Morrer é um exagero. E, como se sabe, o exagero é a matéria-prima das piadas. Só que esta não tem graça.
Tento ser o tesão que você sente pela vida. Procuro estar nas revistas masculinas que você vê no banheiro e nas partidas de futebol que assisti aos domingos. Eu estou na espuma da sua cerveja no fim do expediente, e na mulher gostosa que seus amigos comentaram que pegaram no fim de semana. Eu me escondo nas cartas de poker, e na sua banda preferida de rock. Eu estou lá na sua academia, ou no seu feirão de carro esporte. Mas você nunca irá me enxergar, pois sou também a tal beleza da vida que os humanos insistem em ignorar. Vou estar no seu enterro, com um buquê nas mãos. Vou ser seu último suspiro, serei seu caixão.